Introdução à Fotografia Digital

I - O Processo Convencional

A Fotografia Convencional baseia-se sempre em um suporte físico de filme e/ou papel fotográfico, e através de um processo que envolve inúmeras etapas chega-se ao produto final constituído por : ampliações, cópias por contato, slides, negativos, ou cromos coloridos.
A qualidade da foto depende do conhecimento técnico do fotógrafo, dos recursos de seu equipamento fotográfico, dos materiais utilizados como suporte, de sua sensibilidade e habilidade de enxergar e expressar a realidade e finalmente dos processos de revelação e acabamento.

Considerando que no mundo atual trabalha-se cada vez mais com o produto final digitalizado : agências de publicidade, gráficas, empresas de preparação de CDs e audio-visuais, sites da Internet etc...., deve-se ter em mente que na fase final do processo a fotografia acaba traduzida em bits e armazenada em um computador.

Neste cenário, o Processo Convencional desde o filme dentro da máquina até o computador envolve pelo menos quinze etapas : revelação, banho, fixação, remoção do hipocloreto, enxágüe, secagem, ampliação ou cópia por contato, revelação do papel, banho, fixação, remoção do hipocloreto, enxágüe, secagem do papel, scanner e gravação do arquivo no computador.

Inúmeros fatores contribuem para a qualidade do produto final, além dos citados anteriormente :

os filmes e papéis fotográficos não podem estar vencidos e nem ter sidos expostos à temperaturas extremas que possam afetar seu desempenho ;

as embalagens onde se armazenam os filmes e papéis devem estar preservadas para evitar exposições à luz ;

os filmes virgens ou utilizados e não revelados não podem ter sido expostos às fontes de raio x ou qualquer outra irradiação cujo comprimento de onda o sensibilize ;

a idade e a temperatura das substâncias químicas utilizadas no processo devem estar adequadas às especificações técnicas exigidas ;

os equipamentos de revelação e ampliação devem estar perfeitamente ajustados para a qualidade exigida no produto final, como : tempos e temperaturas de banhos e enxágües, grau de agitação, combinação de filtros utilizados para controle do equilíbrio de cores especificados para o tipo e lote de papel utilizado etc..

Deve-se considerar ainda que nem todos (amadores e profissionais) têm acesso aos laboratórios, ou seja, não podem alterar significativamente as variáveis que afetarão seu produto final, submetendo-se na maioria das vezes aos ajustes padronizados para valores médios que estão distantes de seus propósitos.

Os elevados investimentos envolvidos na montagem de um laboratório para processamento à cores, aliado aos volumes de trabalhos requeridos para sua operação em patamares financeiramente acessíveis, inviabilizam, na maioria das vezes, a "câmara escura pessoal", levando os fotógrafos a pagarem caro por um processamento personalizado (realizado por laboratórios especializados) ou atirando-os nos braços dos mini-labs e demais empresas que aceitam apenas o tratamento padrão.

Os resultados, para aqueles que dominam o conhecimento técnico da fotografia, são muitas vezes frustrantes e acabam por limitar sua criatividade, nivelando-os aos amadores despretensiosos.

II - O Processo Digital

A imagem digital é um subproduto da guerra fria e da exploração espacial, onde os cientistas tiveram que desenvolver uma maneira de enviar imagens captadas em locais distantes para os centros de pesquisa na terra. Assim, cada pequeno ponto de imagem (denominado "pixel") é transformado em números e depois em impulsos elétricos transmitidos através do espaço. Estas imagens eram normalmente digitalizadas na resolução de 800 X 800 pixels totalizando 640.000 elementos individuais de imagem para compor cada foto.

Antes mesmo do advento das câmeras digitais, as primeiras versões de programas de editoração de imagens como o Adobe Photoshop, o Letraset e outros já vinham sendo utilizados desde o final dos anos 80.

As primeiras câmeras digitais chegaram ao mercado no início dos anos 90 no padrão profissional e alguns anos depois tornaram-se acessíveis para os amadores com diversos lançamentos efetivados pela Apple, Fuji, Nikon, Casio, Sharp, Canon, Epson, Kodak e outras marcas.

Como o processo digital não está restrito à captação da imagem por uma máquina fotográfica, visto que fotos convencionais podem ser digitalizadas através de scanners amplamente utilizados em trabalhos de computação e praticamente disponíveis em qualquer lugar, deve-se analisar com mais cuidado os significados das palavras dentro deste novo cenário para melhor entendimento do Processo Digital.

O conceito de Imagem Digital ainda permanece nebuloso mesmo para uma boa parte dos fotógrafos profissionais. Existem novos termos, novos procedimentos e novos processos envolvidos, surgem a cada desdobramento da tecnologia novos equipamentos que devem ser dominados, softwares que devem ser aprendidos e linguagens a serem conhecidas e desenvolvidas. É como iniciar o estudo de fotografia outra vez dentro de uma nova realidade.

Existem inúmeros termos que surgiram com a imagem digital. Entender corretamente seus significados e como devem ser usados, torna a transição para a era digital mais fácil.

Infelizmente algumas definições ainda são vagas e as vezes confusas. Os termos "imagem digital" e "imagem eletrônica" são muitas vezes usados como sinônimos apesar de não representarem a mesma coisa.

2.1 Definições associadas à Imagem Digital

O termo Imagem Digital refere-se ao processo específico de transformar imagens em dados digitais, enquanto Imagem Eletrônica engloba todas as formas de fotografar, tanto as digitais quanto as analógicas. Tal distinção costumava ser mais pronunciada do que é atualmente. No final dos anos 80 e início dos 90, haviam diversas câmeras com "still-video" no mercado, que ao invés de transformar a imagem em dados binários, como as câmeras digitais fazem agora, elas apenas gravavam tomadas, como quadros analógicos individuais de vídeo. A qualidade destas imagens não era particularmente boa, tornando as "still-video câmeras" obsoletas em pouco tempo.

A gravação de vídeo é outra forma de Imagem Eletrônica. Ela pode ser usada para filmar ações em movimento, como também para capturar quadros individuais específicos de uma seqüência, possibilitando sua digitalização e transferência para um computador.

Sobrevêm ainda muita confusão sobre os termos "Fotografia Eletrônica" e "Imagem Eletrônica". Tradicionalmente, a fotografia eletrônica refere-se a fotos feitas com luz artificial usando "strobes" e "flood lights", enquanto a imagem eletrônica refere-se ao processo de tirar fotografia eletronicamente sem o uso de filmes.

A Imagem Digital torna-se mais fácil de ser entendida quando desdobramos o processo em seus componentes básicos, ou seja : captação (que representa tirar uma foto e colocá-la dentro de um computador), manipulação (significando o tratamento e modificação da imagem) e produto final (representando as várias formas de saída para a imagem digitalizada).

Em seguida, encontram-se detalhados cada um destes conceitos.

2.2 Captação

A captação pode ser feita através de um "scanner", uma câmera digital ou uma rede de computadores (Internet ou Intranet).

Atualmente, a maneira mais comum é através de um "scanner" usando-se um negativo, cromo ou cópia.

Nos Estados Unidos alguns laboratórios já fornecem como opção o filme revelado em forma de CD ou disquete com as fotos já digitalizadas, por um pequeno valor adicional.Outros, recebem o filme a ser revelado pelo correio e após o processamento, devolvem as fotos de volta diretamente para seu e mail através da Internet. Em nosso país, tal serviço pode ser encontrado em alguns "Quiosques Digitais" existentes nas principais lojas de fotografia, por preços ainda pouco convidativos.

Essas são boas opções para os fotógrafos interessados em possuir fotos digitalizadas para posterior manipulação nos computadores ou simples remessa para os amigos através da Internet.

A melhor opção para aqueles que pretendem utilizar com freqüência fotos digitalizadas é comprar um scanner plano de mesa, cujos preços já se tornaram acessíveis em nosso mercado. Tal equipamento pode ser conectado com facilidade em qualquer computador, transferindo as imagens captadas diretamente para o disco rígido.

A segunda opção é através das Câmeras Digitais que possibilitam a captação direta de imagens na forma digital, armazenando-as em cartões de memória como : Flash Cards, CompactFlash, SmartMedia, Microdrives ou Disquetes, possibilitando a imediata transferência de arquivos para os computadores. As inconveniências desta opção são : baixa resolução dos equipamentos de preço mais acessível, limitações de recursos das câmeras quando comparadas com as convencionais de valor equivalente e preços ainda elevados dos equipamentos completos.

Fica, de qualquer forma, a mensagem veiculada em algumas revistas especializadas : "a melhor maneira de ter uma foto digitalizada (de alta resolução) com baixo custo é usando um bom scanner e não gastando todas suas economias na compra de uma boa câmera digital".

Uma vez que a imagem foi captada e encontra-se no computador,ela poderá ser modificada.

2.3 Manipulação

Existem inúmeras maneiras para modificar imagens digitalizadas, como a Otimização : utilizada para limpar fotos que contém imperfeições envolvendo ajuste de brilho e contraste, remoção de "olhos vermelhos", uso de filtro para aumento de definição e eliminação de manchas de poeira e riscos. O processo de otimização de imagens é relativamente fácil de ser aprendido e existem vários programas disponíveis para este fim por preços acessíveis que executam todas as operações automaticamente.

A Manipulação de Imagens já envolve mudanças em suas características. Tais mudanças podem ser simples como a alteração da cor de fundo de uma foto ou a remoção de algum indivíduo ou elemento indesejado, até aquelas altamente complexas envolvendo radicais mudanças sobre a tomada original, podendo até transformá-la em um trabalho artístico.

A maior parte das Imagens Digitais envolvem prévia Manipulação.

Existem no mercado softwares de diversos níveis e recursos, indo dos mais simples e amigáveis até os altamente profissionais que necessitam um bom treinamento ou muitas horas de estudo para sua plena utilização.

A Foto Composição consiste em montar em uma única composição diversas imagens, gráficos, textos e outros elementos. Ela pode ser considerada como o topo da Imagem Digital, considerando-se a complexidade dos trabalhos e técnicas envolvidas.

Há algum tempo os programas profissionais para Foto Composição custavam caro e estavam restritos ao uso de algumas agências de publicidade. Atualmente existem softwares de preço acessível com elevada capacidade de foto composição, fazendo desaparecer os limites anteriormente existentes entre a Manipulação de Imagens e a Foto Composição.

2.4 Produto final

O estágio final do Processo da Imagem Digital é sua forma de utilização ("output").

Ele pode consistir de : cópias ou ampliações, slides, material para impressão, arquivos para distribuição em redes de computadores ou montagem em documentos escritos etc..

A forma mais comum de impressão é por intermédio das impressoras de jato de tinta, porém a de melhor qualidade é a de "dye-sublimation" ou "dye-sub".

Impressoras jato de tinta de alta resolução (Foto Realística) e baixo preço vêm sendo lançadas a cada dia no mercado, tornando acessível a qualquer usuário o uso das mesmas para as finalidades mais corriqueiras. Inclusive as "dye-sub", em modelos mais simples, já podem ser compradas no mercado americano por menos de US$ 1.000, tornando sua aquisição viável para fotógrafos profissionais e amadores.

A geração de slides a partir de arquivos digitais ainda é um processo caro apesar de sua excelente qualidade, obrigando os fotógrafos que necessitam de tal produto final recorrerem a laboratórios especializados.

De uma maneira geral, torna-se necessária a gravação dos arquivos de fotos manipuladas em um meio físico que possibilite o fácil transporte. Gravá-los em disquetes é a primeira alternativa, desde que sua dimensão (mesmo comprimido) caiba no mesmo. Outra é a utilização de "Zip drives" que permitem armazenar até 600 Mb, ou seja, diversas fotos geradas em modo de alta resolução, que ocupam sempre arquivos com mais de 20 Mb.

Daí para frente resta apenas levar os arquivos aos laboratórios especializados, que os transformam em : cópias, ampliações, slides etc..

Outro caminho é o de transmitir os arquivos através de algum serviço "online", onde não há necessidade de cópias, gravações, etc. Por outro lado, o número de pessoas que possuem acesso a tal facilidade ainda é irrelevante em nosso país, estando restrito às grandes editoras de revistas e jornais.

Transmitir grandes arquivos pela Internet, em face das limitações existentes nas velocidades de transferência, ainda é inviável. Arquivos contendo fotos com alta resolução, demandam mais de 30 minutos de transmissão e dificilmente são aceitos pelos Provedores de acesso.

Apesar do cenário acima parecer um pouco confuso, a Imagem Digital não deve ser vista como uma tecnologia de difícil domínio. Para tanto deve ser analisada etapa por etapa, procurando-se sempre obter o pleno conhecimento de cada uma delas.

Os assuntos até aqui abordados, serão desenvolvidos nos capítulos subseqüentes, permitindo ao interessado aprofundar-se nas diversas técnicas disponíveis.

III - Uma análise comparativa entre a fotografia digital e a convencional

A eliminação do filme, a imediata visualização da foto tirada e a rápida decisão pelo seu aproveitamento e a transferência direta da foto tirada para o computador ou impressora constituem-se nas grandes vantagens da fotografia digital, ou seja, para se chegar ao arquivo digitalizado correspondente à uma tomada, basta conectar a câmera digital ou cartão de memória ao computador por meio de um cabo e simplesmente copiá-lo.

Deste momento em diante todos os recursos de manipulação e geração dos produtos finais poderão ser aplicados, como em uma foto qualquer captada por algum dos outros meios citados anteriormente.

Daí para simples impressão (cópia) da foto depende-se apenas de uma impressora ligada ao computador. Outra alternativa disponível em boa parte das câmeras digitais é o da visualização das fotos em uma pequena tela existente na parte posterior da mesma no instante subseqüente à tomada, ou pela TV convencional através da simples ligação por um tipo de cabo específico.

Apesar destas grandes vantagens, as câmeras digitais ainda não podem ser vistas como o equipamento que elimina as inúmeras etapas do processo convencional.

As razões são várias: altíssimo preço dos equipamentos (principalmente em nosso país onde taxas exorbitantes são pagas quando da importação mesmo para produtos que não produzimos internamente), baixo nível de resolução das imagens captadas por máquinas amadoras ou semi-profissionais, limitada capacidade de armazenamento de fotos, tempo de espera entre duas fotos tiradas em seqüência (para algumas câmeras), peso das câmeras mais sofisticadas, recursos limitados de lentes para os modelos mais simples, elevado custo para reprodução em papel e elevado consumo de energia elétrica (pilhas) pelas câmeras.

De forma geral, um importante aspecto a ser analisado pelo fotógrafo digital é o da compatibilidade entre a resolução que se pretende no "Produto Final" e a resolução do método de captação a ser utilizado. Ou seja, se o trabalho final ficar bom com uma resolução de 300 dpi não será necessário captar a imagem com resolução equivalente à 600 ou 1.200 dpi.

Outro aspecto fundamental a ser considerado é o da Linguagem Fotográfica, pois se estamos entrando em novo mundo é indispensável revermos nossos conceitos de formação de Imagens. Assim que o interessado estiver familiarizado com as diversas técnicas utilizadas no Processo Digital, automaticamente começará enxergar a realidade a ser fotografada de maneira diferente.

Prof. Ricardo Iglesias


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