Do vidro à película

Os avanços na fotografia foram rápidos, correspondendo ao enorme interesse despertado na época pela atividade. A procura por novos materiais para suporte, por novos processos químicos que encurtassem a exposição, acelerassem a revelação e aperfeiçoassem a fixação das imagens foi incessante. Paralelamente, a busca de meios que facilitassem a disseminação da fotografia também foi espantosa: no espaço de poucos anos surgiram novos formatos e modalidades de câmeras, algumas delas servindo de parâmetro para o futuro e outras destinadas à curiosidade histórica.

Um retrato de Sir John Herschel (impresso em papel albuminado) feito por Julia Margaret Cameron em abril de 1867. Cameron foi uma das mais importantes fotógrafas com expressão pessoal da Inglaterra vitoriana, sendo influenciada pelos artistas pré-rafaelit

Um visionário - O astrônomo inglês John Herschel começou a inscrever seu nome na história fotográfica já em 1839, quando conseguiu a primeira fotografia em vidro, um suporte que imediatamente foi incorporado pelos daguerreotipistas. Também é dele a primeira cópia azul, o cianotipo. Mas Herschel foi, sobretudo, um homem que sabia usar as palavras: foi ele que cunhou, em seus diários, os termos fotografia e fotográfico, ainda em 1839. No ano seguinte, pronunciando-se na Royal Society, criou os termos negativo e positivo. Anos mais tarde, em 1860, idealizou outras palavras que fariam carreira, disparo e instantâneo. Também foi um visionário: previu arquivos públicos em que a documentação seria microfilmada e lida em ampliadores (fato que só começou a se tornar realidade em 1938).

Albumina - Abel Niépce, primo do celebrado precursor, começou a utilizar com sucesso a clara de ovo (albumina) como emulsão para a chapa de vidro, reduzindo o tempo de exposição para cerca de 5 a 15 minutos. Isso levou aos chamados halótipos, aperfeiçoado pelos Laggenheimem 1848, na Filadélfia. Graças à transparência perfeita, esse processo se mostrou excelente para diapositivos de projeção - lanternas mágicas e imagens estereoscópicas. Em 1850, E. Blanquart-Evrard começou a fabricar papéis albuminizados para cópias por contato, e este foi o meio de comercialização de fotos preferido pelos fotógrafos profissionais até o final do século XIX. O fotógrafo sensibilizava o papel antes de usá-lo, e a cópia era virada com cloreto de ouro, o que melhorava a cor e a durabilidade.

Colódio úmido - Frederick Scott Archer era um escultor inglês que visava melhorar o registro em papel dos calótipos, que usava para seu estudo de modelos. Pensou que o recém-descoberto colódio poderia substituir o papel. Em 1851, com colódio contendo iodeto de potássio, recobriu uniformemente uma placa de vidro, sensibilizada com nitrato de prata. Archer descobria um método que iria suplantar todos os existentes até então: a sensibilização foi aumentada e a exposição caiu para 10 a 90 segundos para paisagens e de 2 a 20 segundos para retratos pequenos (os ambrotipos). A revelação se dava com sulfato de ferro, a fixação com hipossulfito de sódio ou cianeto de potássio. Era o processo mais rápido até então, e livre da guerra de patentes entre Inglaterra e França. Mas havia desvantagens: a exposição deveria se dar com a chapa ainda úmida - a sensibilidade era perdida à medida que o colódio secava. A manipulação era complicada e obrigatoriamente rápida, e o fotógrafo de exteriores tinha de carregar consigo um "quarto escuro" ambulante.

Ambrótipo

O ambrótipo, variante do primeiro processo de Archer, era um Ambrótipo sobre vidro - ele o obtinha com o branqueamento de um negativo subexposto.

Colocado sobre papel aveludado, entre molduras douradas, era um substituto barato para o daguerreótipo.

Gelatina seca - As primeiras tentativas de substituir-se o colódio úmido por placas de gelatina seca foram feitas na Inglaterra por Richard Maddox, um médico microscopista que criou uma gelatina de bromureto de prata. No entanto, o processo era 180 vezes mais lento que o do colódio. Richard Kennet e Charles Bennet aperfeiçoaram a gelatina e aceleraram o processo e, em 1878 quatro fábricas inglesas começaram a vender placas de gelatina seca: além de conservarem-se por mais tempo, elas permitiam a fotografia instantânea, realizada em frações de segundo. Em 1879 fábricas da França e dos EUA já as produziam em quantidades industriais.

Película - O inconveniente continuava sendo o peso do vidro e sua fragilidade. Em 1861 Alexander Parkes inventara o celulóide. John Carbutt, inglês que emigrou para a América, convenceu em 1888 a um fabricante de celulóide produzir folhas extremamente finas, que podiam ser recobertas com gelatina. Estas folhas podiam ser utilizadas como películas: bastava cortá-las no formato desejado. No ano seguinte, a Estman Co., que fabricava a Kodak, começou a produzir películas em rolos, feitas de niitrocelulose, ainda mais delgadas. Os herdeiros do rev. Hannibal Goodwin, que já havia patenteado a película em 1887, receberam 5 milhões de dólares como indenização da Eastman Co. O esforço não foi em vão: em 1902 ela fabricava de 80 a 90% da produção mundial de películas.

Uma idéia na cabeça, mil câmeras na mão
Pequenos retratos - Joseph Petzval, matemático vienense, um aficcionado de primeira hora da fotografia, foi o primeiro a dar uma solução para o retrato, grande ambição dos fotógrafos. Em 1841, antes mesmo da aceleração química da revelação das chapas de daguerreótipos, criou uma câmera de bronze que tirava fotos circulares, de 9 centímetros de diâmetro. Ela funcionava com uma objetiva combinada (dupla), que dava excelente definição, oferecia opções variáveis de abertura (máxima de f 3,5) e a exposição durava de 90 segundos a dois minutos.

A câmera Voigtländer, feita por Petzval, foi a primeira a possibilitar o retratismo.


O fotógrafo despoja o artista de seu meio de sobrevivência, de Hosemann, 1843.


Roger Fenton

Bagagem pesada - As câmeras para calótipos e daguerreótipos eram semelhantes, mas as primeiras possuíam um porta-placas interno para armazenar até dez folhas de papel, e cada folha caía num reservado inferior após ser exposta. O primeiro modelo especial para viajantes foi criado para Roger Fenton cobrir a Guerra da Criméia, em 1850.

As câmeras chegam ao público

Os primeiros equipamentos, na verdade, consistiam de câmeras escuras artesanais, em sua maior parte de madeira, feitas pelos próprios interessados e, geralmente, por artistas plásticos.

Em Londres, Francis West começou a produzir câmeras para o chamado "desenho fotogênico".
Para os daguerreótipos, Alphonse Giroux começou a vender várias unidades de sua câmera clássica parisiense, com duas caixas de madeira. A caixa posterior continha o vidro lustrado para focalizar, e deslizava para a caixa anterior, que continha a objetiva.


uma câmera escura do tipo usado
por Talbot e Daguerre.

Uma das câmeras feitas pelo óptico parisiense
Giroux para a firma de Daguerre.

Maiores e menores

Logo nasciam as primeiras competições e concursos, e elas sempre davam ensejo a novidades inusitadas. Câmeras imensas que portavam chapas de 110 por 90 centímetros (feitas por John Kirble em Glasgow, 1860): cada placa de vidro pesava 20 kg.

Paralelamente, desde a década de 50, se introduzia a estereoscopia, e a tendência de construir-se câmeras diminutas foi mais fértil, estendendo-se até o século XX.
Em 1850, um inglês chamado Skaife criou uma pistola fotográfica, primeira versão de uma espécie chamada de câmeras discretas (escondidas em guarda-chuvas, bengalas, chaveiros) que se tornariam uma febre no final do século, apesar da baixa qualidade dos resultados. Essas câmeras-detetive foram bem vendidas até o início do século XX. Mesmo na década de 1840, foram muito populares as câmeras de bolso que tiravam daguerreótipos de 8 x 11 milímetros, que tinham de ser observados com lente de aumento. Sinal de que os grandes formatos só tinham o caminho da ampliação para vingarem: na verdade, boa parte do público parecia ter grande interesse em experimentar o prazer de fotografar.

Os estereoscópios

A popularização da fotografia e o incremento das atividades comerciais deve-se muito aos estereoscópios.

O estereoscópio binocular possibilitou exposições de frações de segundo, permitindo fotografar cenas em movimento. Eram feitas duas exposições seqüenciais que encantavam o público com uma incrível ilusão de profundidade. A própria Rainha Vitória aprovou entusiasticamente o invento em 1851, e no ano seguinte ele ingressou nos Estados Unidos, onde foi vendido de porta-em-porta e dizia-se que "não havia um lar sem um estereoscópio".


Um elegante estereógrafo de
meados do século XIX.

Aqui, câmera estereoscópica de 1856, de J. B. Dancer.

Os ampliadores

Ampliadores - A mais conhecida das câmeras pequenas foi a criada por Adolphe Bertsch em 1860, a chamada "câmera automática": um caixotinho de 10x10 centímetros com foco fixo, que produzia negativos 6x6 para serem ampliados em até dez vezes.

A ampliação até aquele momento requeria horas de sol sobre um papel de enegrecimento direto, por isso era pouco praticada. Bertsch reduziu esse tempo com um condensador duplo.


Um desenho do ampliador ou "câmera solar", que demorava horas para realizar uma ampliação.

Fim de século

Com a introdução da gelatina seca, as variedades de câmeras foram lentamente se reduzindo e se adaptando ao novo suporte. Entre 1880 e 90, três tipos de câmera eram majoritárias:

1. Câmera com chassis. Em geral vinham com 10 chapas, cada qual num chassis individual.

2. Câmera com compartimento interno que guardava 12 chapas ou 40 folhas de película.

3. Câmera reflex de uma ou duas objetivas. Todas incorporavam um espelho fixo colocado a um ângulo de 45 graus da objetiva, refletindo a imagem num vidro polido localizado na parte superior da câmera.


Câmeras de chapa no final do século.


Filme em rolo - Kodak

Em 1888, George Eastman lançou a primeira Kodak com filme de rolo.
Uma caixa de madeira com 16x9x9cm, com objetiva retilínea de foco fixo que dava definição nítida de qualquer objeto situado a mais de 3 metros, diafragma e velocidade fixos - e o maior atrativo, que impossibilitou a concorrência, a inovação expressa no slogan da Kodak: "Aperte o botão e nós faremos o resto".

Levava-se a câmera à fábrica e ela revelava o filme.

A câmera Kodak de Eastman, 1888. À esquerda, no alto, uma vista externa.
O corpo era de madeira e a chave possibilitava o recolhimento da película, como se vê no corte ao lado direito, acima.

Século XX

Dois caminhos para as câmeras esboçaram-se no início do século. Com a produção de filmes de 35mm para a indústria cinematográfica, surgiu uma grande variedade de câmeras que se utilizavam desse formato, uma solução econômica para os usuários. E a supremacia da Eastman sobre a película de nitrocelulose em rolo fez com que surgisse câmeras para chapas (películas cortadas).

Na Alemanha, onde a produção cinematográfica era intensa, surgiram modelos que marcariam a história das pequenas câmeras, e que aproveitaram a tradição de precisão óptica dos fabricantes do país, respeitada há séculos. A hegemonia alemã na indústria óptica começou no início da Idade Moderna, com a construção de lunetas, telescópios e microscópios, por vezes fornecendo lentes para toda a Europa.

No campo fotográfico, essa fama estabeleceu-se com a objetiva Tessar, de 1902, e consolidou-se com as lentes usadas na Leica e na Rolleiflex.

35mm - A Minnograph, criada por Levy-Roth em 1914, tirava 50 fotos de 18x24mm, e tinha as dimensões externas de 5x6x13cm, muito semelhantes às da futura Leica.

A primeira Leica surgiria no mesmo ano de 14, desenhada pelo construtor de microscópios Oskar Barnack para a casa Leitz, de Wetzlar. Mas a Leica demoraria dez anos para se aperfeiçoar devido ao início da I Guerra Mundial e a inflação que a ela se seguiu na Alemanha, prejudicando a indústria de modo geral.


A Leica

A Leica se afirma: Em 1924 ela iniciava sua trajetória: era a primeira câmera miniatura a vir com telêmetro acoplado à sua objetiva Elmar, de excelente definição, com abertura máxima de f3,5.

O poder de resolução era incomparável: como ressaltam Helmut e Alison Gernsheim, elevou as câmeras miniaturas a "verdadeiros instrumentos de precisão". Isso foi percebido a partir de 1931, quando os reveladores de grão fino reduziram a granulosidade dos filmes rápidos, assegurando boas ampliações.


Um desenho da primeira Leica com telêmetro, seis velocidades, visão direta (visor óptico)
e abertura máxima de f 3,5. Esse modelo foi lançado no mercado em 1925.

Rolleiflex

Rolleiflex - Em 1929, a Frank & Heidecke, de Braunschweig, lançou a Rolleiflex, a precursora de inúmeras reflex de duas objetivas e filme de rolo, que logo sofreu uma inovação que a tornou muito popular, a possibilidade de troca das lentes para mudança de distâncias focais.

A Rolleiflex de 1929 e o princípio da lentes gêmeas: a luz que passa pela lente superior é refletida num espelho e pode ser vista no visor acima da câmera, e aí se dá a focalização. O filme é exposto através da luz que atravessa a lente inferior.


Rolleiflex: Twin lens reflex


Grandes formatos

Em 1924, antes da difusão da Leica, foi uma câmera de chapas que facilitou a vida dos fotógrafos que queriam uma câmera rápida.

A Ermanox, lançada pela casa Ernemann de Dresden, traziam objetivas potentes (f1.8 e f.2.0) que levavam chapas pancromáticas de 4,5x6cm e, com um pouco de luz, permitia fotografar interiores, e foi utilizada pelos primeiros repórteres fotográficos, como Erich Salomon e Felix H. Man.

Outra câmera reflex muito conhecida, anterior à II Guerra, também era alemã: a Reflex Korrelle.

Depois da guerra, todas perderiam fama e espaço para a sueca Hasselblad, de Gotemburgo, que acomodava chapas de 6x6cm em compartimento intercambiável.

Profissionais e amadores - A fotografia, desde o final do século XIX, consolidou-se como o meio tecnológico de expressão mais popular e acessível da história. Ao lado das câmeras profissionais, foram desenvolvidos modelos práticos, as chamadas câmeras automáticas, que progressivamente foram eliminando "requintes" como a abertura do diafragma e o tempo de exposição, permitindo que a atividade fotográfica fosse dissociada do conhecimento da luz e do processo fotográfico.

No entreguerras, a mais difundida dessas câmeras foi a Optima, fabricada pela Agfa.
Em 1947 surgiu a primeira Polaroid, criada por Edward H. Land nos EUA, permitiu que um positivo fosse obtido em 60 segundos após a exposição, revelando o papel dentro da própria câmera e aproximando a fotografia de uma brincadeira de criança, lúdica e divertida.

A câmera instantânea


A primeira instantânea, chamada de Polaroid Land em função de seu criador, e que foi lançada no mercado em 1948.
À esquerda, o carretel maior é para o papel, o menor é para o negativo.

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